"Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta."

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vale-carne vegetariano

Muita expectativa por todos os lados, menos por mim, com meus dons premonitórios. Na verdade, não é um dom, é sensibilidade para perceber como as coisas se apresentam ao meu redor. Eu tinha medo de ir e não tinha coragem de mudar.

Muito mais próximo estava alguém distante. Pelo menos no sentido de se importar, de dizer e de querer saber. Companhia por mensagem de celular. Tirando isso, apenas estranhos se faziam amigos enquanto amigos se faziam estranhos.

Festa estranha, gente esquisita, uma amiga em fuga, até a hora de não conseguir mais se esconder. O impacto de ver alguém desconstruir a imagem que se tinha, conversas nem tão reveladoras assim e uma noite de mágoas. O que era aquilo? Eu já deveria saber.

Dia seguinte de tentar recuperar o sono, o cansaço da festa sem graça, repetindo os rituais de misturar goma e água suja. E ainda nem tinha chegado à metade. As músicas me incomodavam, e eu o tempo todo pensando nos lugares onde aquilo não existe, pra onde foram todas as pessoas que eu quero ser quando crescer.

Até que de outra mágoa não fui capaz de fugir. Seria tempo demais exposta ao constrangimento que, é certo, não deveria existir. Mas havia, e eu não conseguiria fingir. Não era hora de tratar de hipóteses, mas de fatos, e o ato era que naquele momento doía. Eu não queria continuar testemunhando o meu próprio funeral. Que poderia não ser funeral, que pode mesmo ter sido criado por mim. Mas naquele instante, eu não fui capaz.

Fugi, mas da fuga vi luz. Vi o encanto de ser querida, de ser livre, de fazer o que queria, de não ser julgada. De ver poesia na rua, de ver cores de carnaval. Me surpreender com a minha cidade sendo redescoberta, com as pessoas que ficaram e fizeram festa. Com a alegria que há também por aqui, onde a tradição expulsava todo mundo pra qualquer outro lugar.

Na quarta-feira de cinzas, resta a dúvida do que ficou, do tamanho do meu estrago em busca da paz de espírito e do bem-estar. Ainda não sei o preço de ser vegetariana na festa da carne.

1 depoimentos de amigos:

Marta Barcelos Monteiro disse...

"Ainda não sei o preço de ser vegetariana na festa da carne." Poucos jornalistas, neste nosso país, saberão escrever isso. o lido me fez viajar a outro tempo, tempo morador de meus ontens, onde a leitura do livro "Lagartas e Libélulas", do escritor maranhense Humberto de Campos, fez-me conhecer 'As Cavernas do Vento Sul', conto em que uma tribo moradora do limite do deserto resolve adentrá-lo, para descobrir seus mistérios e possibilidades. Acampam, cavam poços, criam animais. Uma noite, o Vento Sul tudo destrói. Faz-se necessário ir atrás das Cavernas do Vento Sul, para lá, então, combater tão grande destruidor. Cansados da empreita, alguém diz: __Voltemos Saul! E é respondido: __ Voltar pra onde? Quem de nós sabe o caminho de volta? Continuemos, pois, atrás das Cavernas do Vento Sul.